domingo, 26 de junho de 2011

À noite

Se perguntava quando perdeu o sono

A angústia chegou sem aviso

e instalou-se para sempre

Agora a noite chega e o peito

sente a dor sufocante

Sobe até a garganta, e quando o corpo se deita

é como se se entregasse a um ritual

de asfixia lenta

Melhor ficar à janela

escutar o silêncio da cidade

que dorme

E se questionar como é que isso

tudo se deu

domingo, 1 de maio de 2011

O amor

90% das pessoas

Que falam em amor

Não sabem do que falam

Ah, querido,

O amor é alguém

Que raramente aparece

Mas quando sai das sombras

É sol resplandecente

Fere de morte

Cativa a lembrança

Fisga a memória

E torna impossível

a tarefa de desvencilhar-se

dele

Bate à porta

de maneira tão suave

Que ninguém resiste

e abre

Traz uma alegria gostosa

Mas logo em seguida

Uma angústia

Ai, uma dor

Inexplicável

Incalculável

Inexprimível

O sintoma mais cruel

do amor

É a incapacidade

de esquecer

Praga

- Sabes? Vivi uns tempos em Praga

Despertou de imediato meu interesse. Amo o leste europeu.

- Foi mesmo? Foi fazer o quê, lá?

- Fui de intercâmbio. Praga é linda demais, precisas conhecer.

- Pois, tenho muita vontade de ir, mesmo... diga aí alguma coisa em checo!

- Ahahahaha, nem sei mais de nada... só aprendi a pedir cerveja, essas coisas...

- Ah, mas tinha aulas em que língua? Inglês?

- É, eu me virava, sabes? Eu me virava bem. Praga é linda, precisas conhecer.

- Adoro o leste. Um dia eu vou.

- Fui também à Hungria, Polônia...

- Conheço a Polônia. Amo o país.

- Foi a Cracóvia? Varsóvia?

- Às duas. Era um sonho. Realizado, agora.

- Epá, não existe coisa pior que o húngaro.

- Ih, imagino...

- É difícil demais. Eu não percebia nada. Ouvi dizer que a língua surgiu de uma tribo asiática que se instalou na Europa e fundou o país. É enrolada demais, não percebes nadica!

- Acho que foi o Chico Buarque quem disse que o húngaro é a única língua que o diabo respeita!

- Pois, tenho certeza que o diabo respeita, mesmo... porque também não percebe nada!

quinta-feira, 17 de março de 2011

Sem título (03 mar 2011)

Gostei de saber

que os búlgaros têm

um verbo para não ter

“нямам”

“нямам време”

“Não tenho tempo”

Ora bem – como dizem os portugueses

- e quem o tem?

Penso que finalmente

consegui agarrá-lo e

ops!

Escapou-me de novo

Quando tenho a batalha

por vencida,

eis que descubro que

com ele só perco

Tempo é peixe

que desliza entre as mãos

e se vai, livre, dono de si

Senhor da razão

Mestre da verdade

O tempo – diz alguém

- é o ponto de vista

dos relógios

domingo, 7 de novembro de 2010

Tristezazinha

Tenho uma portinha dentro de mim
Pequenina, quase imperceptível
Que nunca foi aberta

Alguém jogou a chave fora
Desfez-se dela
E fez bem

Lá mora uma tristezazinha miúda
que, sentada, chora de noite e de dia
Não tem nada, nem ninguém
Não há quem se lembre dela

Ficou lá, esquecida do mundo
Correu, e encurvada, socou o corpo pequenino
no canto da parede úmida

E já que vive trancada
Não aparece
Mas vez ou outra lança seu olhar amargo
pela fechadura
E sua dor se espalha em mim
Como perfume acre

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Conversação

Olhava para minha boca enquanto eu falava. Nunca gostei que fizessem isso. Era como uma agressão. Era como não me levar a sério. Como querer me beijar de súbito, me invadir.

E era como se colhesse cada palavra de minha boca. Se aproximava de mim, e lia as frases que deslizavam de minha língua. Percebi sua dificuldade pela fala, levemente embargada, e passei a dizer as coisas de forma cada vez mais explicada, flexionando bem os lábios, para que me entendesse melhor.

E era engraçada a maneira como seus olhos saíam dos meus e desciam para minha boca. Me lembrava aquele outro rapaz, o que eu amava. Eu costumava dizer que seu olhar descia e subia escadas, suavemente, varando toda a presença, sondando o ser. Um olhar tímido, de muito recato – e porque não dizer - , elegância. Eu o adorava. Em meio ao burburinho geral, aproximava o ouvido de minha boca, baixava os olhos, os cílios lindos se fechavam levemente, "à mi-clos” - como dizem os franceses -, e me davam a ilusão de que assim ele conseguiria ouvir minha voz.

Essas lembranças do passado atravessaram minha mente, e trouxeram à tona, mais uma vez, a dor do amor mal curado. Tentei afastá-las, como fingir que uma ferida que dói não está doendo. Foi quando me deparei com ele, que me olhava, ainda. “Vou descer na próxima. Até breve, então?” “Até!”, respondi. Me beijou no rosto, e se foi.