domingo, 1 de janeiro de 2012
domingo, 26 de junho de 2011
Sem título (26 jun 2011)
Quando a vi, notei que algo havia mudado irremediavelmente. A beleza continuava intacta, uma diferença aqui, outra ali, mas o enigma eram os olhos. Os olhos de loucura. E pior, de morte. Perguntei sobre banalidades, evitando tocar no assunto principal: ela. Ela, sim, me interessava.
Nunca vou me esquecer de quando a vi pela primeira vez. Foi no aeroporto. Eu partia, ela chegava. O porte mignon chamou minha atenção de primeira; sempre tive uma queda por mulheres assim. Não esboçava um sorriso. Tinha o rosto muito sério, o corpo ereto, braços cruzados que seguravam uma bolsa da cor da pele dela. Estava com um homem, muito sem graça – como acontece com todos os homens que acompanham uma mulher notável pelo charme. Um nulo.
Segui-os até o café. Quando sinto esse gênero de atração as minhas pernas me comandam, não consigo controlar minhas ações. Um momento em que o homem distanciou-se foi suficiente para que eu me aproximasse. Falei alguma coisa sobre um dos anéis que usava. Como quem não quer nada. Pronto! Fisguei sua atenção.
Seguiram-se alguns encontros furtivos. Eu e ela tínhamos em comum o fato de vivermos em pontes aéreas. Alguns elogios ao seu sorriso lindo – sim, ele agora aparecia pra mim; ela se compadecera. Até que um dia, na hora da despedida, ela encostou o rosto ao meu e não resisti. Nos beijamos como se nunca houvesse acontecido com nenhum dos dois antes.
Desaparecemos mutuamente. Mudei de ponte aérea por questões do meu tedioso trabalho; nunca mais nos cruzamos. Vez ou outra me lembrava daqueles encontros. Resolvi tentar a ponte aérea de antigamente, ver se a reencontrava.
E a encontrei. Conversamos sobre coisas idiotas; era como se nos houvéssemos visto ontem. Estava na mesma mesa do café. Bebia whisky. “Não sabia que você bebia”, eu disse. “Você não me conhece”, ela replicou. Virou o lindo par de olhos em minha direção: “Tentei suicídio. Obviamente não funcionou. Agora vivo o castigo de viver”. “Por que isso? A vida tem seus momentos ruins, mas vale a pena”. “Não me encaixo aqui”, respondeu.
Acendeu um cigarro. “Aqui é proibido fumar”, eu disse. “Que se dane”. Fumou languidamente. Bebeu o último gole de whisky. Levantou-se, tomou meu rosto entre as mãos e me beijou. “Fique bem, ok?”, disse, no tom conselheiro de uma mãe que previne o filho que sai para uma aventura arriscada.
À noite
Se perguntava quando perdeu o sono
A angústia chegou sem aviso
e instalou-se para sempre
Agora a noite chega e o peito
sente a dor sufocante
Sobe até a garganta, e quando o corpo se deita
é como se se entregasse a um ritual
de asfixia lenta
Melhor ficar à janela
escutar o silêncio da cidade
que dorme
E se questionar como é que isso
tudo se deu
terça-feira, 3 de maio de 2011
domingo, 1 de maio de 2011
O amor
90% das pessoas
Que falam em amor
Não sabem do que falam
Ah, querido,
O amor é alguém
Que raramente aparece
Mas quando sai das sombras
É sol resplandecente
Fere de morte
Cativa a lembrança
Fisga a memória
E torna impossível
a tarefa de desvencilhar-se
dele
Bate à porta
de maneira tão suave
Que ninguém resiste
e abre
Traz uma alegria gostosa
Mas logo em seguida
Uma angústia
Ai, uma dor
Inexplicável
Incalculável
Inexprimível
O sintoma mais cruel
do amor
É a incapacidade
de esquecer
Praga
- Sabes? Vivi uns tempos em Praga
Despertou de imediato meu interesse. Amo o leste europeu.
- Foi mesmo? Foi fazer o quê, lá?
- Fui de intercâmbio. Praga é linda demais, precisas conhecer.
- Pois, tenho muita vontade de ir, mesmo... diga aí alguma coisa em checo!
- Ahahahaha, nem sei mais de nada... só aprendi a pedir cerveja, essas coisas...
- Ah, mas tinha aulas em que língua? Inglês?
- É, eu me virava, sabes? Eu me virava bem. Praga é linda, precisas conhecer.
- Adoro o leste. Um dia eu vou.
- Fui também à Hungria, Polônia...
- Conheço a Polônia. Amo o país.
- Foi a Cracóvia? Varsóvia?
- Às duas. Era um sonho. Realizado, agora.
- Epá, não existe coisa pior que o húngaro.
- Ih, imagino...
- É difícil demais. Eu não percebia nada. Ouvi dizer que a língua surgiu de uma tribo asiática que se instalou na Europa e fundou o país. É enrolada demais, não percebes nadica!
- Acho que foi o Chico Buarque quem disse que o húngaro é a única língua que o diabo respeita!
- Pois, tenho certeza que o diabo respeita, mesmo... porque também não percebe nada!
quinta-feira, 17 de março de 2011
Sem título (03 mar 2011)
Gostei de saber
que os búlgaros têm
um verbo para não ter
“нямам”
“нямам време”
“Não tenho tempo”
Ora bem – como dizem os portugueses
- e quem o tem?
Penso que finalmente
consegui agarrá-lo e
ops!
Escapou-me de novo
Quando tenho a batalha
por vencida,
eis que descubro que
com ele só perco
Tempo é peixe
que desliza entre as mãos
e se vai, livre, dono de si
Senhor da razão
Mestre da verdade
O tempo – diz alguém
- é o ponto de vista
dos relógios