Olhava para minha boca enquanto eu falava. Nunca gostei que fizessem isso. Era como uma agressão. Era como não me levar a sério. Como querer me beijar de súbito, me invadir.
E era como se colhesse cada palavra de minha boca. Se aproximava de mim, e lia as frases que deslizavam de minha língua. Percebi sua dificuldade pela fala, levemente embargada, e passei a dizer as coisas de forma cada vez mais explicada, flexionando bem os lábios, para que me entendesse melhor.
E era engraçada a maneira como seus olhos saíam dos meus e desciam para minha boca. Me lembrava aquele outro rapaz, o que eu amava. Eu costumava dizer que seu olhar descia e subia escadas, suavemente, varando toda a presença, sondando o ser. Um olhar tímido, de muito recato – e porque não dizer - , elegância. Eu o adorava. Em meio ao burburinho geral, aproximava o ouvido de minha boca, baixava os olhos, os cílios lindos se fechavam levemente, "à mi-clos” - como dizem os franceses -, e me davam a ilusão de que assim ele conseguiria ouvir minha voz.
Essas lembranças do passado atravessaram minha mente, e trouxeram à tona, mais uma vez, a dor do amor mal curado. Tentei afastá-las, como fingir que uma ferida que dói não está doendo. Foi quando me deparei com ele, que me olhava, ainda. “Vou descer na próxima. Até breve, então?” “Até!”, respondi. Me beijou no rosto, e se foi.
Fiquei toda arrepiada com o texto... acho que um em cada dez mulheres pelo mundo já passou por isso... o texto é fantástico!
ResponderExcluirestou entre diálogos imaginários e lembranças que me desviam o olhar.
ResponderExcluirlindo texto, Elis!
feliz de ter ver abrindo o coração!
besus
Sabe um dos meus contos favoritos é sobre um senhor que ao longo de sua vida dividira seu coração com as pessoas que passaram por suas vidas. E quando trocava pedaços com pessoas queridas e depois perdidas, ali ficava um pedaço mal costurado e mal cuidado pela falta do zelo do seu antigo dono.
ResponderExcluirNo meu coração também existem diversas feridas mal curadas que doem vez ou outra quando minhas lembranças, e olhe que minha mémoria é uma vilã em sua própria exatidão, me trazem atona amores não vividos e outros partidos ao ponto que se fechar os meus olhos tempo o bastante da pra sentir 25 anos de feridas, e olhe que nem lhe contei sobre as que cobrem minha pele e musculos, eis o motivo dos tormentos em minha noite.
Independente do tempo, creio que nessa longa viagem de bonde precisamos de quém nos acompanhe e que por puro amor não cuidem somente dos pedacinhos que doaram do seu próprio coração, mas segurar o orgão lascerado, mal costurado e eternamente mal cicatrizado e assim o amando por inteiro.
Cada pequenina cicatriz latejante é responsavel pala grandiosidade do teu ser.